Ausento-me da vida. Parto para longe
Para além das montanhas, onde a vista nada mais avista
Lá, estarei finalmente livre...
...das garras da mágoa
...dos temporais da ira
...do vulcão dos desejos
...da procura incessante dos sonhos
...da incapacidade de amar
Ficarei lá para sempre
...Lá não há pedras ásperas que esfolem a minha pele
...Lá não há rosas com espinhos que espetem e me façam sangrar
...lá não há gritos ou gemidos de dor
Tantos “não há”
Mas além das montanhas, também há muitos “hás”
...há o coração adormecido pela ausência de sentimentos
...há os olhos que já não choram...... a alma os fechou
...há as mãos que já não tocam........ estão frias e sem movimento
...há a boca que já não beija.........está sem viço e sem cor
...há todo um corpo que não mais se arrepia....a vida o abandonou
Mas é lá que quero ficar...preciso descansar
Preciso fechar as cortinas do palco e encerrar o último ato da peça chamada VIDA
Quero PAZ. E as minhas memórias
Não serei mais EU, não terei nome, nem serei um número
Serei apenas as minhas memórias. Memórias feitas de estrelas, de lua, de cheiros, de toques, de suspiros, de risos, de sorrisos....
Memórias que se confundirão com o vento, invisíveis, só sentidas
Memórias que, pela noite, entrarão nos sonhos, sejam eles sonhos acordados ou, apenas sonhados
De quem? Não sei. Apenas sonhos
Sonhos que terão o meu cheiro, o som do meu riso e o calor do meu corpo
Sonhos de toques sem mãos, de beijos sem boca, de abraços sem braços
Será como vir novamente ao palco, abrir a cortina e me apresentar
Finalmente, já não preciso sonhar. Eu serei o próprio sonho
E isso me basta!







